As vinhas da Ira


"O homem ficava sentado no seu assento de ferro e sentia-se orgulhoso das linas retas que ela não traçara, do trator que não lhe pertencia e que não amava, do poder que não podia controlar. E quando a safra progredia e a colheita terminava, nenhum homem pegava um punhado de terra quente e a deixava escorrer entre os dedos. Nenhum homem tinha tocado as sementes ou sentido alegria quando amadureciam. Os homens comiam aquilo que não tinham plantado; não tinham nenhum vínculo com o pão que comiam. A terra produzia pelo efeito do ferro, e sob os efeitos do ferro morria gradualmente; não era amada; nem adorada nem amaldiçoada."


Título Original: As Vinhas da Ira 
Autor: John Steinbeck
Ano: 1939
Editora: Editora Record
Páginas: 572
Categoria: Romance
IG: @leituraromancecafe
Presente de amigo secreto.

Ganhador dos dois principais prêmios da literatura (Putlizer e Nobel, em 1962), é considerado um romance, mas eu particularmente o classificaria como um drama. Afinal, o enredo todo é baseado nas dores de um povo que luta por sua sobrevivência em meio ao abandono do governo.
​As Vinhas da Ira traz de forma envolvente os problemas da sociedade estadunidense na grande depressão no ano de 1929.
​Tom Joad, assim que é liberto da prisão, vai de encontro à sua família, mas toda ela está de malas prontas para abandonar suas terras. Infelizmente, em Oklahoma, a seca arruína as plantações, e os grandes bancários, sem piedade, expulsam milhares de fazendeiros de suas terras.
Sem a possibilidade de sobreviver na região tomada pelos poderosos banqueiros (armados), não lhes restam outra opção que não fosse encontrar um novo lugar para sobreviver (não viver). 
Assim, eles partem sem saber ao certo o que de fato lhes aguarda. Com pouco dinheiro, a família inicia uma humilhante e infernal jornada. Jornada essa em que muitos camponeses do oeste americano foram submetidos.

O livro é doce e denso, encantador e triste; em alguns pontos revoltante e tragicamente real. É empolgante ver nas pessoas a esperança de um amanhã melhor, mas não tenho como descrever o quanto é dolorosa a realidade imposta a cada dispertar do sol.  


O drama é presente em todas as páginas, mas isso não torna o livro fatigante, ao contrário, o autor dosa suas palavras de modo que conduz o leitor a vivenciar vários sentimentos, e em vários momentos você não contém o riso. Existe uma ponta de graça em muitas situações. É incrível como o pobre até em meio a desgraça, encontra graça. 

Também temos alguns capítulos que são isolados, estes chamam o leitor a uma reflexão; um questionamento filosófico sobre quem na verdade é o homem com e sem dinheiro. Acreditem, é assustador.

Como podemos, diante de uma crise, nos tornarmos tão egoístas, a ponto de não vermos à nossa volta a dor dos menos favorecidos?

A verdade é que este livro registra as muitas marcas profundas de uma nação e de um povo em meio a um tempo de fome e dor.
“Caminhamos porque somos obrigados a caminhar. É o único motivo por que todos caminham. Porque querem alguma coisa melhor do que têm. E caminhar é a única oportunidade de se obter essa melhoria. Se querem e precisam, têm de ir buscar. É pena que se tenha de lutar tanto assim.” 

​As Vinhas da Ira nos remete a uma leitura que nos enriquece de muitas formas. Nosso sentimento é colocado à prova. Quem realmente somos é questionado de forma dura nessa encantadora obra prima.

Steinbeck soube copilar da alma as dores de um povo e de um tempo que marcou a história de uma grande nação. Eu não só recomendo, mas insisto que faça essa leitura.
"O homem não é apenas carvão, nem sal, nem água, nem cálcio. Ele é tudo isto, e também é muito mais que o simples resultado de sua análise. O homem, que é mais que a sua composição química, caminhando na terra, desviando o arado de uma pedra (...). (...) esse homem, que é mais que os elementos que o compõem, sabe também que a terra é mais que o simples resultado de sua análise química."

Garanto que você, em muitos momentos, se verá sobre a carroceria de um caminhão, olhando para os longínquos campos, cheio de esperança.  (J.J.) 

“Tenha-se medo da hora em que o homem não mais queira sofrer e morrer por um ideal, pois que esta é a qualidade básica da humanidade, é a que a distingue entre tudo no universo.”

“Os pequenos proprietários não tardavam a mudar-se para cidades, onde esgotavam o seu crédito, os seus amigos, as suas relações. E depois eles também caíam nas estradas. E as estradas estavam cheias de homens ávidos de trabalho, prontos para matar pelo trabalho(...) as companhias e os bancos trabalhavam para sua própria ruína, mas não sabiam disso. Os campos estavam prenhes de frutos, mas nas estradas marchavam homens que morriam de fome. Os celeiros repletos, mas as crianças pobres cresciam raquíticas. (...) As grandes companhias não sabiam o quão tênue era a linha divisória entre a fome e a ira.” 


Nenhum comentário