Querida Ana - Matheus Maia


Leitura Romance Café
Querida Ana

Confesso que, no primeiro olhar, foi a capa que me atraiu a fazer essa leitura, em seguida o título e o possível conteúdo.

Querida Ana, na verdade, é a biografia de Matheus Maia. Foi como estar sentada em meio a uma roda de pessoas numa tarde de domingo e inesperadamente você percebe que uma em especial, tem a urgência de compartilhar as tristes experiências vividas. 



Titulo: Querida Ana: A história de um adolescente que teve sua vida roubada pela Anorexia
Autor: Matheus Maia 
Produzido: Independente
Gênero: Biografia
Páginas: 139
Ano de publicação: 2018
Onde Comprar: Amazon /  Perensin Produções

Ela mexe com o meu psicológico. Ela me faz ficar horas sem comer e fazer exercícios de uma forma absurda. Sempre que como, ela briga comigo. Ela não existe concretamente, claro. Mas existe em minha cabeça. Ela me faz sentir nojo de comida, ao mesmo que tempo que luto contra a fome. Me faz enxergar gordura onde não há. Mas não tem como fugir. Ela já é parte de mim… Apresento a vocês, minha Querida Ana.


Resenhando | Querida Ana.


Matheus se descreve como uma pessoa confusa, frágil, que busca desesperadamente uma mão na superfície, mas nada é tão avassalador e pesado quanto à anorexia que o traga para as mais absurdas situações. Confesso que senti pena de seu pai. Um homem duro que errou, e se errou foi no anseio de resgatar o filho das garras da morte, para o qual ele mesmo se precipitava.

No livro, você não terá espaços físicos descritos, as características das pessoas e até mesmo alguns nomes são deixados de lado. As poucas descrições que ele fez me mostrou a forma dele observar tudo a sua volta: “Ingrid era magra”. 

O autor se detém em por para fora o desespero no qual parece estar sentenciado. E gente, como eu fiquei, em muitos momentos, indignada. Como a mente pode trabalhar contra o corpo no qual habita? Se autodestruir, e se sabotar? E como agir em uma situação assim? A pessoa sem ver, se coloca no centro do furacão, e todos a sua volta, apesar de o amarem, parecem trabalhar contra a sua vontade, que é se auto flagelar.

Na página 118 aconteceu um fato que me chamou muita atenção: um professor o vê vomitando de propósito e relata a coordenação. Os pais são chamados e avisados, mesmo após várias internações, o filho não podia continuar frequentando as aulas. Apesar de Matheus se sentir indignado por ter sido “expulso”, na minha concepção, a escola apenas tentava preservar a vida dele. Com tantos conflitos internos, frequentar a escola naquele momento era o mesmo que lançar um coelho na jaula dos leões. Mas ele, cegado pela maldita anorexia, compreendia que todos estavam contra as suas vontades e necessidades.

Gente, é revoltante e desesperador. Ao mesmo tempo em que ele diz: Chega! Eu não posso viver como escravo dessa doença, duas vírgulas depois, rendido, com a comida pesando no estômago, ele encontra na bulimia o apoio que precisa. E sem culpa, busca as mais repugnantes formas de livrar da “infração” de se alimentar.

Por fim, nas últimas páginas, durante a terapia, Matheus percebe que o problema nunca esteve na comida em si, mas dentro dele, enraizado como um câncer que por ora parece estar contido.

Durante toda a leitura até a última palavra, você irá presenciar um cabo de guerra estendido, pronto a rebentar. De um lado, um traço de consciência, que por vezes se emerge (acredito que o próprio corpo implorando para sobreviver), do outro lado a tão odiada, detestável e miserável Anorexia (Ana), que com suas mãos esqueléticas, o embala em seu colo, e o mantém entorpecido, preso em seu regaço de morte.

Logo nos primeiros capítulos, se percebe que esta é uma obra que marca os primeiros passos de um autor.  Se você ler os 6 primeiros capítulos e depois pular para o 22, conseguirá dar a sequência na leitura tranquilamente.

“Isso não quer dizer que é uma leitura ruim?” Não. Acontece que todo o enredo está nas idas e vindas de Matheus. Ele foi internado várias vezes, então nessas passagens, alguns amigos chegam, outros vão embora, mas Matheus persiste ao final de cada página entregando sua mão à pior companhia possível (bulimia).

Não vou dizer quem deve ler, o que posso é aconselhar os que não devem.  Se você sofre bullying, humilhações por ter certa preferência sexual... Se o mundo não te entende, seus pais não te apoiam, e a dor te corrói por você não se encaixar nessa sociedade que atropela os mais fracos sem piedade: Não mesmo! Essa leitura não é para você. Não chegue perto, você merece crescer e sorrir, nada que possa desmotiva-lo é digno da atenção de seus olhos, meu leitor. O livro pode ser considerado um gatilho para pessoas que enfrentam problemas como os citados acima.

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